
PF investiga conexões de Flávio Bolsonaro com apostas e imóveis
Investigações da Polícia Federal apontam para ligações financeiras, viagens e negócios entre o senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, envolvendo empresas de apostas online e disputas imobiliárias. As apurações também incluem…
A Polícia Federal (PF) investiga uma série de conexões financeiras, empresariais e pessoais entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o advogado e empresário Willer Tomaz. As apurações, divulgadas em reportagens nesta quinta-feira (22/10/2026), concentram-se em suspeitas de lavagem de dinheiro ligadas ao setor de apostas online, além de envolvimento em disputas imobiliárias e possíveis irregularidades em processos de licenciamento. Os investigados negam irregularidades.
Vínculos com o mercado de apostas
Um dos eixos da investigação é a relação de Flávio Bolsonaro com a Alcazar Holdings, empresa de Willer Tomaz sediada na Ilha da Madeira, Portugal. Documentos indicam que o senador teria figurado como usuário master da conta bancária da companhia. A Alcazar Holdings é apontada como possível financiadora da Cathedral, acionista do conglomerado de apostas Rede Loto, que operava o site BestBet. A Rede Loto foi constituída em fevereiro de 2023, pouco antes do governo do Rio de Janeiro iniciar o processo de licenciamento de plataformas de apostas. Na época, as regras estaduais não exigiam a identificação dos beneficiários finais de forma rigorosa, permitindo que a documentação não informasse os acionistas da Cathedral, entre eles Tomaz.
O processo de licenciamento também envolve o então presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), Hazenclever Cançado, nomeado por indicação de Flávio Bolsonaro e que foi colega de advocacia de Tomaz. A investigação apura possíveis irregularidades nesse processo.
Willer Tomaz também é apontado como beneficiário final da RioPag, empresa responsável pelo processamento de pagamentos do setor de apostas no Rio de Janeiro desde maio de 2023. Dados da Loterj indicam que a RioPag faturou cerca de R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026. A Loterj cobra da empresa R$ 9,4 milhões por valores considerados não repassados integralmente, além de uma multa de R$ 4,8 milhões. A RioPag contesta a cobrança judicialmente.
Viagens internacionais em jatos executivos
As apurações da PF também identificaram viagens de Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz em aeronaves executivas, acompanhados de familiares, para destinos nos Estados Unidos e na Europa. Em janeiro de 2025, Flávio, sua esposa e filhas viajaram com Tomaz de Fort Lauderdale (EUA) para Brasília em um jato Legacy 650. Segundo Tomaz, o trajeto foi pago com horas de voo de sua cota, e os passageiros eram seus convidados. Para quitar R$ 8,72 milhões referentes à aeronave, o advogado utilizou recursos da Alcazar Holdings. A partir de abril de 2025, a Cathedral passou a custear deslocamentos. Flávio e Tomaz viajaram juntos de Lisboa para Nice (França) e, em maio, de Cascais para Nice, seguindo para Paris, em trechos aéreos pagos pela Cathedral.
Disputa por imóvel de luxo em Angra dos Reis
A ligação entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz também se manifesta em uma disputa judicial por um imóvel de luxo em Angra dos Reis (RJ), avaliado em R$ 10 milhões. Flávio Bolsonaro figura como testemunha em um processo entre Tomaz e o jogador Richarlison, que alega ter comprado o imóvel em 2020. Os direitos de posse foram cedidos à WT Administração, empresa de Tomaz, em 2022, e uma liminar reconheceu o direito de uso em favor do advogado. Richarlison e moradores locais afirmam, contudo, que Flávio Bolsonaro é quem mais frequenta o local. Em 17 de outubro, o jogador solicitou à PF a investigação da participação do senador na disputa, alegando que o imóvel foi tomado por meio de manobras judiciais. Flávio Bolsonaro nega atuação irregular, e Tomaz afirma ter adquirido legalmente os direitos e regularizado pendências fiscais.
Conexões com investigados por fraudes no INSS
Outra frente de questionamentos envolve empresas associadas a Flávio Bolsonaro e a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como "Careca do INSS", investigado em apurações sobre fraudes contra aposentados e pensionistas. Segundo informações divulgadas, a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio e Jair Bolsonaro são sócios, funciona no mesmo endereço comercial da construtora RPLD, ligada a Camilo. O principal sócio de Camilo é Alexandre Caetano dos Reis, cuja irmã, Letícia Caetano dos Reis, é diretora estatutária no escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. O escritório emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026.
O que diz a lei e o que está em jogo
As investigações da Polícia Federal buscam apurar a existência de crimes como lavagem de dinheiro e organização criminosa, previstos na Lei nº 9.613/1998 e na Lei nº 12.850/2013, respectivamente. A Lei de Licitações e Contratos Administrativos (Lei nº 14.133/2021) pode ser aplicada caso sejam comprovadas irregularidades nos processos de licenciamento de empresas de apostas. O Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940) tipifica crimes como estelionato e fraude, que podem estar subjacentes às alegações de fraudes previdenciárias e disputas imobiliárias.
A atuação de Flávio Bolsonaro como senador e pré-candidato à Presidência da República adiciona uma camada de complexidade às apurações, especialmente no que tange à possível influência indevida em processos administrativos e judiciais. A investigação sobre o uso de contas bancárias de empresas estrangeiras e o financiamento de viagens pode configurar crimes contra o sistema financeiro nacional, previstos na Lei nº 7.492/1986.
Contraste de teses
De um lado, as investigações da Polícia Federal apontam para uma teia de conexões financeiras e empresariais que poderiam configurar crimes como lavagem de dinheiro e fraude. A PF sustenta que o compartilhamento de contas bancárias, o custeio de viagens por empresas ligadas a apostas e as coincidências de endereços comerciais com investigados por fraudes previdenciárias configuram indícios robustos de irregularidades.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam qualquer conduta ilegal. O senador afirma que as notícias representam uma tentativa de criminalizar sua atividade profissional e sua relação de amizade com Tomaz. O advogado, por sua vez, sustenta a legalidade de seus negócios e nega responder pela administração da RioPag. A defesa argumenta que as coincidências de endereço, por si só, não comprovam irregularidades e que as transações financeiras e viagens foram lícitas.
Leitura rápida
- Quem é investigado: Senador Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz.
- Principais pontos de investigação: Conexões financeiras com empresas de apostas online, uso de jatos executivos para viagens internacionais, disputa por imóvel de luxo e ligações com investigados por fraudes previdenciárias.
- O que dizem os envolvidos: Negam irregularidades, alegando amizade e legalidade nos negócios.
- Próximos passos: Aprofundamento das investigações pela Polícia Federal e possíveis desdobramentos judiciais.
O que ainda falta esclarecer
A natureza exata das relações financeiras entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, especialmente o acesso do senador à conta da Alcazar Holdings, permanece um ponto central a ser esclarecido. A comprovação de que as viagens foram custeadas por empresas ligadas ao mercado de apostas e se isso configurou alguma vantagem indevida também é crucial. A participação do senador na disputa judicial pelo imóvel em Angra dos Reis e a extensão das conexões com o caso "Careca do INSS" são outros aspectos que demandam detalhamento pelas autoridades investigativas.
Perguntas objetivas
Quais são as principais investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz?
A Polícia Federal investiga conexões financeiras e empresariais entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz, focando em suspeitas de lavagem de dinheiro no setor de apostas online, uso de jatos executivos para viagens internacionais, disputa por um imóvel de luxo e ligações com investigados por fraudes previdenciárias.
O que dizem Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz sobre as investigações?
Ambos negam irregularidades. Flávio Bolsonaro afirma que as notícias visam criminalizar sua atividade profissional e sua amizade com Tomaz. Willer Tomaz sustenta a legalidade de seus negócios e nega responsabilidade pela administração da RioPag.
Quais leis podem ser aplicadas nas investigações?
As investigações podem envolver a Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei nº 9.613/1998), a Lei de Organização Criminosa (Lei nº 12.850/2013), a Lei de Licitações (Lei nº 14.133/2021), o Código Penal e a Lei do Sistema Financeiro Nacional (Lei nº 7.492/1986), dependendo das condutas apuradas.
Qual a relação entre as investigações e o caso "Careca do INSS"?
As investigações apontam coincidências de endereço comercial entre a Bravo Grafeno, empresa de Flávio e Jair Bolsonaro, e uma construtora ligada a Antônio Carlos Camilo, conhecido como "Careca do INSS", investigado por fraudes previdenciárias. A irmã do sócio de Camilo é diretora no escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro.
Este texto explica o tema para quem não é da área. Não é parecer e não substitui a análise de um advogado sobre o seu caso.
